O vento despe e açoita as árvores do sertão, de onde caem algumas flores. Os sertanejos se encheram de esperança, pois o inverno andava meio escasso, naquele ano. Nas fazendas, as janelas e portas altas, típicas das velhas construções do século XVIII, compunham o frontispício da casa grande, com o curral de gado de leite ao lado.
A luz morria aos poucos no horizonte, no limiar da serra, até onde a vista alcança. Escurece, e o céu apresenta-se enervado com as estrelas cintilantes, que começam a aparecer. Os lampiões de luz tênue são acesos e o ambiente fica ligeiramente dourado.
Na frente da casa, com vestes de vaqueiro, cigarro de palha atrás da orelha, chapéu quebrado, o velho Xoró repensa o dia de lida com o gado. O boi Angu tinha quebrado a cerca de novo. Tinha sido um dia difícil, pois era muito custoso o preparo da terra para o plantio do algodão.
Às vezes, ele tirava o chapéu, alinhava os cabelos brancos empoeirados, e tentava puxar prosa com algum peão, que passava por ali. Mas, todos estavam apressados, pois o amanhã seria o dia da feira, na Cidade próxima.
O coronel e a senhora já estavam em casa, desde cedo. Após o banho de cuia, eles se dirigiram ao quarto do casal, que ficava no fundo do corredor, depois da cozinha, onde era exibido um fogão Bertha à lenha.
No quarto, uma cama de casal com uma colcha estampada. De um lado, havia uma cadeira de palhinha, em frente a uma antiga cômoda. O guarda-roupa ficava em frente à cama, e na soleira da porta uma cortina antiga e poeirenta. Atrás, em lugar reservado, um oratório com a imagem da Padroeira do Município demonstrava o espírito de religiosidade dos sertanejos.
Fragmentos de poeira dançam no ar, enquanto o canto de uma ave de rapina faz-se ouvir.
Depois do jantar, na sala da frente, a comadre Sinhá senta-se numa cadeira de balanço, apoiando as costas, rentes numas almofadas, bordadas em Jardim de Piranhas. À sua frente, o seu maior orgulho: um piano Dorner, onde, às vezes, ela tocava "Ramona".
A luz do corredor ilumina a sala, distribuindo sombras nas paredes caiadas. O rádio valvulado a bateria, em meio a muito chiados, toca uma melodia de Chiquinha Gonzaga. De repente, o noticiário: Hitler, naquele ano de 1937, possui o apoio da Europa Ocidental. Nos seus pés, o gato ronrona com sono, esperando o último afago da sua dona. Mas, o assunto que ainda chocava o povo era o assassinato do Engenheiro Octavio Lamartine, ocorrido dois anos antes, na Fazenda Ingá, no sertão do Estado.
A porta da frente, fechada com a tramela, deixa passar pela brecha uma pequena réstia de luz.
As crianças estão deitadas, e os adultos preparam-se para dormir, pois na fazenda o dia começa cedo. De manhã, todos acordam no escuro, ainda, para o desjejum matinal: queijo, manteiga de garrafa, batata e macaxeira cozidas, cuscuz, coalhada e carne seca. O bule de café preto, pilado e bem coado.
As crianças já estão com a roupa de domingo, alpercatas lavadas, saias e calças limpas. As carroças dos feirantes começam a passar, em frente à casa, largando poeira.
A feira é perto dali. Logo chegam. Lá estão os vendedores de bugigangas, de louça, de artefatos de latão, de remédios, de roupas e tecidos, de implementos agrícolas e sementes.
Deixam a carroça da fazenda nos fundos da Igreja, onde alguns tropeiros lavam os burros, limpam e passam sebo nos eixos das carroças. Alguns afiam enxadas, foices, picaretas e pás.
Um pouco à frente, mulheres preparam comidas, em panelas de barro e, na bodega em frente, alguns homens tomam cachaça com umbu.
O sol já estava esparramando quentura, por todo lado, quando voltaram para a fazenda, com as provisões necessárias para mais uma semana.
Autor: Elísio Augusto de Medeiros e Silva
E-mail: elisio@mercomix.com.br
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